domingo, 19 de setembro de 2010

Aquilo que se pode ofertar

Sabe, há dez meses atrás, eu fazia parte de um grupo de culto. Não era um grupo reconstrucionista. Mas tínhamos um trabalho sério de dedicação aos deuses. Eu gostava muito de estar ali com aquelas pessoas. Uma das coisas de que gostava é que nos encontrávamos na casa de uma de nós, horas antes das celebrações, e começávamos a cozinhar. Passávamos a tarde na cozinha,conversando sobre coisas sagradas e preparando com esmero nossas ofertas. Era um verdadeiro banquete.

Agora, estou pendurada no outro extremo. Nos reuníamos para fazer as libações em parques, preciso pegar condução e pensar bem tudo que vou carregar. Nesse caso, me vejo escolhendo com esmero um bolo de milho recheado no mercado, ou vendo o Jota surgir com Natuchips de mandioquinha e inhame, e o Tinho com biscoitos de aveia e mel. Longe do ideal? Com certeza. Mas é o que é possível nesse momento: escolher com cuidado algo pronto, que possamos comer com as mãos, em um parque público.   

Em casa, vivo um meio termo. Ano passado, na Diasia, fiz bolo e ambrosia. Este ano, ofertei fandangos eco (porque tem formato de animais). Aliás, biscoitos em formato de animais é uma coisa que está ficando clássica entre os recons na Diasia: comprados mesmo, muitas vezes. As vezes, posso preparar algo bacana para o deipnon de Hécate, as vezes abro um pacote de cookies de mel, ou simplesmente pego umas colheradas de mel. Nem banquetes, nem tudo comprado pronto. Aquilo que é possível.


Sempre penso que o foco maior é que eu oferte aquilo que tenho de melhor. As vezes, o que tenho de melhor é um incenso de palito, um vinho de mesa tosquinho e uma vela. As vezes, é mel, água, leite, vinho e azeite, olíbano em grão e bolos feitos por mim mesma. As vezes, é cerveja, carne no fogo e meu trabalho. As vezes, tenho um hino e só. As vezes, um ritual de horas.

Mas sempre, é preciso buscar o que se pode fazer de melhor. Ainda que o melhor daquele momento não seja o que você gostaria. É melhor do que não fazer nada por julgar que não pode fazer muito.

As vezes,é preciso lembrar que a relação com os deuses se constrói das pequenas coisas de todo dia. Do lembrar de oferecer a Héstia a primeira porção do que você come. De dizer ao menos "bom dia, deuses" quando passa corendo diante do altar atrasada para o trabalho. De manter o pensamento em coisas virtuosas. De reconhecer que se é só um mortal. E de pensar nos deuses, em seus mitos, em sua forma, em relatos de outros devotos.

Não podemos tentar ser quem não somos. E se o que eu posso fazer é pouco, que seja feito com esmero, com a certeza de que será o melhor possível, e nada menos do que isso.

4 comentários:

Iony disse...

Certa feita passei por um dilema desse tipo, afinal uma essoa que admiro muito contava que ofertava o melhor vinho em taças de cristal para o seus deus de devoção. Me senti um lixo. Aí pesquisando sobre o egito achei a seguinte citação de uma estela:"Fazei oferenda com o que se encontra em vossas mãos. Se não possuís nada, pronunciai a oferenda com vossas palavras." Estela do Cairo 2003." Agora como Recon Egipcia, eu te falo: é isso aí, ofertamos a palavra, pq essa não se compra e Maat a ve e a sente, não há como mentir. Então sarah, se um bolo comprado na padaria é o seu melhor, que seja!E se te disserem o contrario, vire as costas e vá embora. Nem vale a pena discutir mais!rs

Espartana disse...

Poha, acho que vou fazer um post sobre isso também, dentro da série de 'coisas que me dão raiva'... >:/

Espartana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jota Olliveira disse...

Sarita... Pois é... Nós e nossos improvisos. Que é gostoso poder parar um dia em casa e cozinhar, tomando um vinho e celebrando os deuses é bom e não há dúvidas disso. Fiz isso esse mês e achei fantástico, mas estou de férias e isso já vai se acabar.

As coisas práticas que precisamos providenciar pra cultuar nossos Deuses no dia a dia se encaixam bem. E é como eu disse uma vez no Jota de Copas: As vezes deixar de fazer o simples porque não se pode fazer o elaborado elimina o contato que podemos ter com os Deuses.

É meio como o que rola entre eu e minha mãe. Raras vezes podemos parar e jantar. Mas todo sábado pedimos pizza e tomamos Coca-Cola e sem dúvida... Não é um banquete feito por nós, que bem ou mal é mais pessoal, mas é o momento nesses casos que valem mais.

 

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