Não se falavam muito. Estavam afinal, cada um sentado em uma montanha, com uma ravina enorme entre eles. E para quem olhasse sem saber, nada seria mais diferente do que aqueles dois.
Ele, com suas vestes compridas e escuras, e seu chapéu, sua barba densa, seu silêncio, seu rosário.
Ela, vestida de açafrão, sua coroa de hera, seus pés descalços, seu grito, seu tirso.
Mas quando a manhã a encontrou deitada sob o sol que nascia, apoiada no rochedo olhando o céu, ele estava de mãos erguidas na direção do mesmo sol, e cantava, um tom grave e monocórdio que a comoveu. E ele sentou sobre o rochedo da sua própria montanha, e contemplaram em silêncio o mesmo céu durante horas.
E quando ela dançou, diante do fogo do altar, hineando seu senhor com palavras amorosas sob as estrelas, ele se comoveu. E respondeu com as palavras de amor que dedicava ao seu próprio senhor. E um canto respondia ao outro.
Sentados na beira do abismo, balançando os pés no vazio, conversavam sobre amor, as palavras entrecortadas sendo carregadas pelo vento. Precisavam esperar o vento mudar de direção, para ouvirem a resposta do outro. Mas agradeciam a gentileza do vento mesmo assim. E eram dois adolescentes falando dos Amados, trocando confidências de primeiro amor.
Ela descia a montanha e se encontrava com mulheres que riam e filósofos de estranho olhar. E ele descia a montanha e se encontrava com homens que riam e filósofas de estranho olhar. E se encontravam nas mesmas assembléias para falar de história, política e poesia, e subiam de volta suas montanhas com belas lembranças.
Ela se encontrava com sátiros e ninfas, e bons daemons que levavam sua voz ao éter. Ele se encontrava com ninfas e sátiros, e anjos que levavam sua voz ao éter.
Seus cantos falavam de um deus que tinha longos cachos e caminhava pelo mundo levando alegria e vinho. Falavam de sacrifício divino e de libertação. E cada um com sua voz e sua visão, viviam a delícia do amor divino.
Contemplação e dança, oração e canto, e acima de tudo, o amor apaixonado por um deus.
Diferentes deuses, diferentes vozes. O mesmo amor pelo Amado, a mesma contemplação da doçura. A mesma escura noite.
Não importava o que dissessem nas cidades, aqueles que seguiam ao invés de amar. Ali nas montanhas, olhavam com carinho um para o outro os dois eremitas.
Só os apaixonados compreendem outro apaixonado...
para um querido amigo que me faz acreditar possível a paz e o respeito.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Marcas
O plano surgiu faz tempo. Maturou, se ajustou. Foi se aconchegando na mente. Então, o presente que ganhei do meu querido Coiote. E lá estava eu, sentada na maca do estúdio de tatuagem.
É como tornar visível um compromisso que eu assumi faz tempo. É colocar uma devoção em nível físico. Tornar indelével. Não é algo de um verão, não é um momento. É o compromisso maior que tenho, para a vida inteira. É uma declaração de amor, também. Acho que é uma declaração de amor, mais do que tudo.
Agora, ela já é parte de mim, e eu quase consigo não ficar olhando a marca sobre a pele feito besta. É como se eu tivesse nascido assim. Minhas tatuagens me são tão naturais que me parecem orgânicas.
Eu escrevi um dia desses que queria uma vida feita de hera e rosas. E é assim que marquei minha pele. A rosa, que fiz como compromisso eterno com a arte e a beleza, e que com a passagem dos anos passei a ver como uma marca devocional para Afrodite. E agora, a hera. Um amor que não sei colocar em palavras, porque é arreton.A presença de Dionísio e tudo que ele significa.
Essa foi a primeira foto que tirei quando a cicatrização já estava quase ok. No dia 25 de agosto, no jardim da Casa das Rosas, para mim, sempre e sempre o lugar onde Dionísio e Apolo tomam chá e dividem um cigarro.
Agora, meu corpo tem uma "god mark". Eu carrego na pele a hera e a rosa.
(e o plano prossegue: quando eu me sentir pronta, no pé esquerdo vai o louro e o nome de Apolo. Mas não tenho pressa. Como eu disse, é para ser orgânico. como o crescimento das plantas)
É como tornar visível um compromisso que eu assumi faz tempo. É colocar uma devoção em nível físico. Tornar indelével. Não é algo de um verão, não é um momento. É o compromisso maior que tenho, para a vida inteira. É uma declaração de amor, também. Acho que é uma declaração de amor, mais do que tudo.
Agora, ela já é parte de mim, e eu quase consigo não ficar olhando a marca sobre a pele feito besta. É como se eu tivesse nascido assim. Minhas tatuagens me são tão naturais que me parecem orgânicas.
Eu escrevi um dia desses que queria uma vida feita de hera e rosas. E é assim que marquei minha pele. A rosa, que fiz como compromisso eterno com a arte e a beleza, e que com a passagem dos anos passei a ver como uma marca devocional para Afrodite. E agora, a hera. Um amor que não sei colocar em palavras, porque é arreton.A presença de Dionísio e tudo que ele significa.
Essa foi a primeira foto que tirei quando a cicatrização já estava quase ok. No dia 25 de agosto, no jardim da Casa das Rosas, para mim, sempre e sempre o lugar onde Dionísio e Apolo tomam chá e dividem um cigarro.
Agora, meu corpo tem uma "god mark". Eu carrego na pele a hera e a rosa.
(e o plano prossegue: quando eu me sentir pronta, no pé esquerdo vai o louro e o nome de Apolo. Mas não tenho pressa. Como eu disse, é para ser orgânico. como o crescimento das plantas)
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Contar histórias, aprender histórias
As vezes, me vejo contando um mito para alguém. Hoje isso aconteceu duas vezes. Curiosamente, os dois mitos, de Psiquê e Eros, e de Pandora, carregam um elemento em comum: a confiança. Hoje falei de confiança, de sofrimento, e de esperança. E foi interessante perceber como os mitos nos ensinam, quando falam conosco usando uma linguagem tão natural como a do sonho. Falam verdades múltiplas, algumas literais, algumas simbólicas. Algumas vezes, um simbolismo que nos toca de modo pessoal.
E estava relendo umas passagens do Nonnus de Panópolis, um autor que escreveu sobre Dionísio. E a passagem da morte de Ampelos é de uma beleza ímpar. E cada vez que leio, encontro um detalhe novo.
De certo modo, também é um mito que fala de amor, de "tentação", sofrimento e superação.
Contar histórias, aprender histórias, relembrar histórias. E eu fico feliz de poder ouvir e falar disso.
Aprendizado é um tipo de teia. E a cada vez encontramos exatamente os mestres que precisávamos para nos mostrar o caminho.
Eros e Psiquê, Anthony Van Dyck
E estava relendo umas passagens do Nonnus de Panópolis, um autor que escreveu sobre Dionísio. E a passagem da morte de Ampelos é de uma beleza ímpar. E cada vez que leio, encontro um detalhe novo.
De certo modo, também é um mito que fala de amor, de "tentação", sofrimento e superação.
Contar histórias, aprender histórias, relembrar histórias. E eu fico feliz de poder ouvir e falar disso.
Aprendizado é um tipo de teia. E a cada vez encontramos exatamente os mestres que precisávamos para nos mostrar o caminho.
Eros e Psiquê, Anthony Van Dyck
terça-feira, 2 de outubro de 2012
A chama
Hoje, limpo meu altar e reacendo a chama da vela perene dedicada à Héstia.
Hoje honro meu Agatho Daemon e agradeço sua infinita paciência, sua ternura e seu conselho.
Hoje me coloco diante dos deuses a quem dediquei meu coração e meu corpo, minha mente e espírito, e agradeço sua presença em minha vida.
Hoje o dia é novo e belo.
Então eu coloco uma adaptação de uma oração matinal escrita pelo Sannion, e que cai perfeitamente bem hoje:
Eu saúdo o dia em alegria, meu coração extasiado pela beleza do cosmo.
Saudações aos deuses dos céus, da terra e àqueles abaixo.
Saudações deuses das montanhas e das florestas,
deuses dos poderosos rios e árvores altivas.
Saudações aos deuses do deserto e do oceano,
deuses dos campos férteis e das cidades movimentadas.
Saudações aos deuses do amor e do êxtase,
de música e dança,
de justiça e beleza,
de força e proteção,
de saúde e prosperidade,
de sabedoria e criatividade,
de todas as virtudes e bençãos que fazem a vida rica e valiosa.
Saudações às mães e pais que vieram antes de mim,
e os mortos honoráveis de todas as nações.
Saudações aos deuses que guiam meu coração,
e os gênios auxiliares que me mostram o caminho.
Saudações à toda a assembléia divina - Eu me regozijo em sua presença
neste belo dia manifestado,
o mundo fresco como em seu primeiro dia,
Que hoje seja o primeiro dia da criação, pleno de possibilidade ilimitada.
Todas as coisas ruins e derrotas de ontem já não são mais. Eu as esqueci.
Hoje que eu possa começar de novo e encarar minhas responsabilidades com um coração alegre.
Hoje que eu faça tudo ao meu alcance para estabelecer a justa medida e fazer do mundo um lugar melhor para aqueles que viram depois.
Hoje que toda palavra dita por mim seja verdadeira. Que a Justiça guie cada ato meu. Que eu possa oferecer conforto à aqueles em necessidade, e mostrar gentileza para cada estranho que eu encontrar. Que eu possa ser disciplinado e moderado e fazer as boas coisas necessárias para que a vida prospere. Hoje possa toda má vontade ser deixada de lado e que eu recuse em meu coração as raízes da raiva e da violência. Que hoje eu permaneça cônscio da presença divina e busque-a no mundo a minha volta. Este voto eu faço para o dia de hoje, e hoje apenas.
Hoje honro meu Agatho Daemon e agradeço sua infinita paciência, sua ternura e seu conselho.
Hoje me coloco diante dos deuses a quem dediquei meu coração e meu corpo, minha mente e espírito, e agradeço sua presença em minha vida.
Hoje o dia é novo e belo.
Então eu coloco uma adaptação de uma oração matinal escrita pelo Sannion, e que cai perfeitamente bem hoje:
Eu saúdo o dia em alegria, meu coração extasiado pela beleza do cosmo.
Saudações aos deuses dos céus, da terra e àqueles abaixo.
Saudações deuses das montanhas e das florestas,
deuses dos poderosos rios e árvores altivas.
Saudações aos deuses do deserto e do oceano,
deuses dos campos férteis e das cidades movimentadas.
Saudações aos deuses do amor e do êxtase,
de música e dança,
de justiça e beleza,
de força e proteção,
de saúde e prosperidade,
de sabedoria e criatividade,
de todas as virtudes e bençãos que fazem a vida rica e valiosa.
Saudações às mães e pais que vieram antes de mim,
e os mortos honoráveis de todas as nações.
Saudações aos deuses que guiam meu coração,
e os gênios auxiliares que me mostram o caminho.
Saudações à toda a assembléia divina - Eu me regozijo em sua presença
neste belo dia manifestado,
o mundo fresco como em seu primeiro dia,
Que hoje seja o primeiro dia da criação, pleno de possibilidade ilimitada.
Todas as coisas ruins e derrotas de ontem já não são mais. Eu as esqueci.
Hoje que eu possa começar de novo e encarar minhas responsabilidades com um coração alegre.
Hoje que eu faça tudo ao meu alcance para estabelecer a justa medida e fazer do mundo um lugar melhor para aqueles que viram depois.
Hoje que toda palavra dita por mim seja verdadeira. Que a Justiça guie cada ato meu. Que eu possa oferecer conforto à aqueles em necessidade, e mostrar gentileza para cada estranho que eu encontrar. Que eu possa ser disciplinado e moderado e fazer as boas coisas necessárias para que a vida prospere. Hoje possa toda má vontade ser deixada de lado e que eu recuse em meu coração as raízes da raiva e da violência. Que hoje eu permaneça cônscio da presença divina e busque-a no mundo a minha volta. Este voto eu faço para o dia de hoje, e hoje apenas.
terça-feira, 10 de julho de 2012
quando o coração canta

Eras o primeiro dia inteiro e puro
Banhando os horizontes de louvor.
Eras o espírito a falar em cada linha
Eras a madrugada em flor
Entre a brisa marinha.
Eras uma vela bebendo o vento dos espaços
Eras o gesto luminoso de dois braços
Abertos sem limite.
Eras a pureza e a força do mar
Eras o conhecimento pelo amor.
Sonho e presença
de uma vida florindo
Possuída suspensa.
Eras a medida suprema, o cânon eterno
Erguido puro, perfeito e harmonioso
No coração da vida e para além da vida
No coração dos ritmos secretos.
Sophia de Mello Breyner -musa do blog
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Celebrando o Sol
Celebrando o Solstício!
Quando viu o vídeo do convite do Thyrsos, o pequeno decidiu participar da celebração, o que me deixa muito feliz. Agora, enquanto ele se ajeita na cama com seus ursinhos, eu posto nossas fotos...
Adaptei os textos todos à ficarem mais fáceis para a compreensão dele, e ele mesmo teve sua participação na leitura, e celebramos Hélios com libações, hinos, incenso. Um dos textos eu reescrevi a partir deste hino a Inti, estendendo a ideia de solidariedade entre os povos gentios a nossos irmãos latinos. Acendemos uma vela dourada na vela de Héstia, e então por fim, acendemos a lanterna que levamos numa pequena procissão (agradecimentos aos hinos em mp3) até o lado e fora, onde deixamos acesa como nosso pequeno farol, uma chama entre muitas chamas.
E de brinde, na minha imensa corujice,rs, vai o André lendo o versinho pra Hélios... (ele repetiu para eu poder filmar, depois de termos terminado,rs)
Quando viu o vídeo do convite do Thyrsos, o pequeno decidiu participar da celebração, o que me deixa muito feliz. Agora, enquanto ele se ajeita na cama com seus ursinhos, eu posto nossas fotos...
Adaptei os textos todos à ficarem mais fáceis para a compreensão dele, e ele mesmo teve sua participação na leitura, e celebramos Hélios com libações, hinos, incenso. Um dos textos eu reescrevi a partir deste hino a Inti, estendendo a ideia de solidariedade entre os povos gentios a nossos irmãos latinos. Acendemos uma vela dourada na vela de Héstia, e então por fim, acendemos a lanterna que levamos numa pequena procissão (agradecimentos aos hinos em mp3) até o lado e fora, onde deixamos acesa como nosso pequeno farol, uma chama entre muitas chamas.
E de brinde, na minha imensa corujice,rs, vai o André lendo o versinho pra Hélios... (ele repetiu para eu poder filmar, depois de termos terminado,rs)
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terça-feira, 19 de junho de 2012
Convite...
"Chamado a todos, onde quer que estejam, que acreditam e partilham das crenças, éticas e valores dos povos antigos. Nós, helenos em coração, ação e fé, e espalhados por todos os lugares do mundo, convidamos a todos amig@s, para juntar-se a nós nesse celebração e ritual em honra de Helios, neste solstício de inverno. Seja a chegada do Sol no norte, seja a despedida d'Ele, por aqui, convidamos todos para a celebração, pois, o que nos une verdadeiramente é a crença e a ideia de que partilhamos um ideal de mundo similar. Sejam bem vindos para celebrar a ida de Apollon e a chegada de Dioniso a Delfos neste 21 de Junho. Acenda seu fogo, registre-o e compartilhe conosco esse momento de amizade, fraternidade e devoção.
O fogo ainda arde!"
(eu sei que aqui estamos no inverno. Mas é verão em Delfos. E é bom nos unirmos para relembrar o Sol...
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sexta-feira, 13 de abril de 2012
Como é isso de uma vida dionisíaca? - ou "nem todo vagante é vadio"
Acho que a primeira coisa a deixar clara é que essas são as minhas vivências. E que cada devoto vai ter vivências diferentes. (para começar, um monte deles não vai usar a palavra devoto do jeito como eu uso, que é um jeito indianíssimo, rs)
Eu descobri Dionísio muito cedo na minha vida. Descobri que existia uma imensa angústia, definida por uma frase de Bakunin: "enquanto houver um escravo no mundo, todos seremos escravos". Então eu descobri essa angústia, esse anseio por uma liberdade que é ampla e que me levou a ver o mundo pelos olhos dos "marginais", dos que vivem à margem. Depois, muito depois, eu ia aprender que nos tempos helenos, Dionísio era um deus de quem vivia a margem...
Então eu descobri a loucura. A loucura morava em mim desde a infância. Mas foi a dor da perda que desencadeou em mim um senso de vagar sem pensar, sem rumo. E Dionísio é um deus que conheceu a loucura. Que vagou, que sentiu na pele. Por isso ele nos liberta da loucura. Porque a loucura é uma prisão, também.
E o tempo passou. E eu conheci o descontrole. Me deixei carregar e aprendi a ver o mundo com um olhar alterado. Mas de novo, havia Dionísio, o que rompe as correntes, e que me ensinou que o descontrole pode ser bom, mas não pode nos dominar.
E meu feminismo vem daí. Não, meu feminismo não tem a marca de Ártemis apenas. Porque como eu posso permitir que me digam o que fazer, que me impeçam de chegar ao máximo de mim, depois de mergulhar o rosto na voragem que é Lyaios?
Então chegou a hora em que Ele estava ali, diante de mim, e eu assumi um compromisso. Ainda não era recon. Mas já estudava a fundo as coisas. E meu compromisso estava selado. Com uma cicatriz e uma quantidade exagerada de vinho em uma noite de verão, eu entendi, de uma vez por todas, que era uma mênade.
Uma mulher comum, com uma vida comum. Que é tocada por Dionísio e que se permite mergulhar na experiência extásica dele.
Então, o que seria ser uma devota dEle?
Para mim, é um compromisso com a liberdade que me faz pesar todas as minhas escolhas e me faz ter uma dolorosa consciência de cada coisa que me oprime ou me força a um determinado caminho - e porque essa consciência dói? porque eu sou só uma mortal e nem sempre tenho a força necessária para me libertar. Dionísio é um deus que te trás consciências novas, que muda seus pontos de vista, que não te permite descansar na sua zona de conforto. Um Deus de Questões.
Mas ele é também o deus que sorri pra mim quando eu recebo as pessoas em minha casa e o vinho corre como água. E bebemos, e rimos, e nos embriagamos, e falamos de arte e ciência, de mitologia e de astronomia, e rimos de imbecilidades. Porque as vezes, é preciso apenas isso: permitir-se.
E Ele é o êxtase. É o transe, a batida do tambor, dos címbalos, das flautas. E escuto uma música, e ele está ali, bafejando meu pescoço. E vejo uma imagem e e corre um arrepio pela minha pele. E eu danço. E quando danço, ele me cura, e mesmo que eu dance até meu joelho me derrubar, eu me levanto depois cansada, feliz e sem dor.
Dionísio são as plantas que cuido em meu jardim, e a hera que eu cultivo em um de seus oratórios. Um deus vegetal, um deus que é seiva. Quando mordo uma uva, é Ele que está em minha boca, e quando me deito no leito de hera que cobre o chão do parque, é com ele que me deito. Quando cuido das plantas e enfeito as árvores com fitas e máscaras, é a Ele quem eu dispenso cuidados.
Quando pinto, entro em um leve transe e é nEle que me sinto mergulhar. Porque a arte é também um espaço seu, e quando eu choro diante de uma obra de arte muito amada, é dEle o toque em meu cabelo consolando meu coração diante das agruras de que a Arte nos liberta.
Ser dionisíaca é saber que suas certezas nunca serão imutáveis. Que sempre haverá um tremor de indignação diante da escravidão, e um anseio para mudar o mundo. E também uma busca pelo prazer, uma busca por enxergar no prazer algo que vai mais longe que só o instante: o prazer é a conexão com a presença divina... e a palavra entusiasmo ganha de volta seu significado verdadeiro... é saber criar drinks não porque seu deus é um deus do álcool, apenas, mas porque vc sente prazer em ver como os outros vão estar mais conectados ao momento graças àquilo. É dançar. É entender o que vibra atrás da batida de uma canção do Jefferson Airplane.
As pessoas imaginam que ser dionisíaco possa ser algo como um bêbado inconsequente e irresponsável, mas nunca se é irresponsável quando o assunto é Dionísio. Porque sempre encaramos as consequências. Porque Ele é um deus que altera a consciência, lembra? Ele nos livra da loucura... e nos ensina a moderação quando nos mostra como misturar água no vinho... e ele mesmo é um deus assim, do tempero, da temperança.
Ele é também um deus de sacrifício, um deus sacrificado. Porque ele nos entende, ele empatiza com os humanos. E as vezes, também é uma experiência nossa. De sacro-ofício. De sermos um pouco timoneiros também.
Acima de tudo, Ele é múltiplo. Delicado, feroz, amável, cruel. E ser dionisíaco é aceitar isso e mergulhar. Dançar no olho do furacão. E se deixar quedar sozinho, fumando silencioso mergulhado no frio das sombras das árvores, curando uma ressaca enquanto se percebe que o mundo só existe graças aos insensatos, que teimam em mudar o mundo ao invés de aceitar tudo sem questionar.
Eu descobri Dionísio muito cedo na minha vida. Descobri que existia uma imensa angústia, definida por uma frase de Bakunin: "enquanto houver um escravo no mundo, todos seremos escravos". Então eu descobri essa angústia, esse anseio por uma liberdade que é ampla e que me levou a ver o mundo pelos olhos dos "marginais", dos que vivem à margem. Depois, muito depois, eu ia aprender que nos tempos helenos, Dionísio era um deus de quem vivia a margem...
Então eu descobri a loucura. A loucura morava em mim desde a infância. Mas foi a dor da perda que desencadeou em mim um senso de vagar sem pensar, sem rumo. E Dionísio é um deus que conheceu a loucura. Que vagou, que sentiu na pele. Por isso ele nos liberta da loucura. Porque a loucura é uma prisão, também.
E o tempo passou. E eu conheci o descontrole. Me deixei carregar e aprendi a ver o mundo com um olhar alterado. Mas de novo, havia Dionísio, o que rompe as correntes, e que me ensinou que o descontrole pode ser bom, mas não pode nos dominar.
E meu feminismo vem daí. Não, meu feminismo não tem a marca de Ártemis apenas. Porque como eu posso permitir que me digam o que fazer, que me impeçam de chegar ao máximo de mim, depois de mergulhar o rosto na voragem que é Lyaios?
Então chegou a hora em que Ele estava ali, diante de mim, e eu assumi um compromisso. Ainda não era recon. Mas já estudava a fundo as coisas. E meu compromisso estava selado. Com uma cicatriz e uma quantidade exagerada de vinho em uma noite de verão, eu entendi, de uma vez por todas, que era uma mênade.
Uma mulher comum, com uma vida comum. Que é tocada por Dionísio e que se permite mergulhar na experiência extásica dele.
Então, o que seria ser uma devota dEle?
Para mim, é um compromisso com a liberdade que me faz pesar todas as minhas escolhas e me faz ter uma dolorosa consciência de cada coisa que me oprime ou me força a um determinado caminho - e porque essa consciência dói? porque eu sou só uma mortal e nem sempre tenho a força necessária para me libertar. Dionísio é um deus que te trás consciências novas, que muda seus pontos de vista, que não te permite descansar na sua zona de conforto. Um Deus de Questões.
Mas ele é também o deus que sorri pra mim quando eu recebo as pessoas em minha casa e o vinho corre como água. E bebemos, e rimos, e nos embriagamos, e falamos de arte e ciência, de mitologia e de astronomia, e rimos de imbecilidades. Porque as vezes, é preciso apenas isso: permitir-se.
E Ele é o êxtase. É o transe, a batida do tambor, dos címbalos, das flautas. E escuto uma música, e ele está ali, bafejando meu pescoço. E vejo uma imagem e e corre um arrepio pela minha pele. E eu danço. E quando danço, ele me cura, e mesmo que eu dance até meu joelho me derrubar, eu me levanto depois cansada, feliz e sem dor.
Dionísio são as plantas que cuido em meu jardim, e a hera que eu cultivo em um de seus oratórios. Um deus vegetal, um deus que é seiva. Quando mordo uma uva, é Ele que está em minha boca, e quando me deito no leito de hera que cobre o chão do parque, é com ele que me deito. Quando cuido das plantas e enfeito as árvores com fitas e máscaras, é a Ele quem eu dispenso cuidados.
Quando pinto, entro em um leve transe e é nEle que me sinto mergulhar. Porque a arte é também um espaço seu, e quando eu choro diante de uma obra de arte muito amada, é dEle o toque em meu cabelo consolando meu coração diante das agruras de que a Arte nos liberta.

As pessoas imaginam que ser dionisíaco possa ser algo como um bêbado inconsequente e irresponsável, mas nunca se é irresponsável quando o assunto é Dionísio. Porque sempre encaramos as consequências. Porque Ele é um deus que altera a consciência, lembra? Ele nos livra da loucura... e nos ensina a moderação quando nos mostra como misturar água no vinho... e ele mesmo é um deus assim, do tempero, da temperança.
Ele é também um deus de sacrifício, um deus sacrificado. Porque ele nos entende, ele empatiza com os humanos. E as vezes, também é uma experiência nossa. De sacro-ofício. De sermos um pouco timoneiros também.
Acima de tudo, Ele é múltiplo. Delicado, feroz, amável, cruel. E ser dionisíaco é aceitar isso e mergulhar. Dançar no olho do furacão. E se deixar quedar sozinho, fumando silencioso mergulhado no frio das sombras das árvores, curando uma ressaca enquanto se percebe que o mundo só existe graças aos insensatos, que teimam em mudar o mundo ao invés de aceitar tudo sem questionar.
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quinta-feira, 22 de março de 2012
Hino Homérico à Héstia
Minha relação com Héstia é um processo de maturidade do caminho. Hoje, a primeira coisa que faço pela manhã é dar a parte de Héstia na minha caneca de leite. É pensar em Héstia e dedicar esse momento ao contato com o divino. Quando preparo a comida, separo sua porção, assim que fica pronta. Um minúscula porção, mas é o que basta para lembrar que para Ela, sempre o primeiro e o último.
Foi por isso que nesse projeto paralelo que estou fazendo pro RHB eu comecei por ela... como começar por outro senão Ela?
Foi por isso que nesse projeto paralelo que estou fazendo pro RHB eu comecei por ela... como começar por outro senão Ela?
quarta-feira, 21 de março de 2012
Serviço diplomático...
Dias 15, 16 e 17 de junho acontece a 8ª Conferência de Wicca e Espiritualidade da Deusa. No domingo dia 17/06, às 13 horas, está marcada a palestra que vou apresentar, sempre levando um pouco da nossa forma de cultuar os deuses para as outras pessoas.
Dionísio: o deus e as mulheres
Carl Kerenyi em seu “Dioniso – Imagem arquetípica de vida indestrutível” relaciona o deus ao conceito de zoé, o impulso de vida que permeia tudo. Um Deus complexo e pleno de facetas, que sedutor, múltiplo e contraditório, atravessa o tempo e mostra uma relação próxima e envolvente com seus devotos.
A palestra se baseia no conhecimento histórico e mitológico de Dionísio, para esclarecer sua relação com o feminino, seu papel como aliado das mulheres, e a propaganda negativa que seu culto sofreu por conta disso. Sua figura se firma através daquelas que primeiro são lembradas quando se fala desse deus: as mulheres; imortais ou humanas, são as primeiras a virem na mente daqueles que prestam culto a ele. Imortais que o perseguiram e acolheram-no; humanas que se entregaram (ou não) à sua teofania. São elas, sem dúvida, os elementos que trazem à luz tanto desse deus. Quem são as Bacantes – tão célebres personagens de Eurípides – que dum reino se aprazem com a presença do deus e recebem seus dons, e do outro sofrem com ele?
Desmitificando a ideia de apolíneo e dionisíaco como opostos, pelo contrário, trataremos da compreensão da complementaridade entre ambos os deuses que tanto tem em comum, e ampliaremos nossa percepção de como os elementos dionisíacos são parte integrante das nossas vivências, e como a devoção a Ele se espalha por uma miríade de aspectos de nosso cotidiano mesmo fora de um contexto religioso/espiritual, especialmente quando se trata das manifestações artísticas. Da catarse teatral às manifestações iconográficas clássicas, veremos como os atributos do deus se tornaram inerentes à própria forma de pensar a arte no ocidente.
Serão abordados os antigos festivais helênicos em sua honra, e como eles podem ser revividos hoje em dia, mostrando um pouco de como os reconstrucionistas e outras Tradições vivenciam esses festivais, além das diversas formas de celebrarmos e cultuarmos esse deus tão plural.
Tópicos abordados:
1) Quem é Dionísio, atribuições e características do Deus
2) As mênades mitológicas- Deusas e Ninfas na vida de Dionísio
3)As mênades mortais – as mulheres no culto a Dionisio
4) A dança, a arte e o êxtase: Dionísio em nossa vida.
5) O masculino como parceiro, lado a lado com o feminino
6) Festivais de Dionísio e sua influência até hoje.
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