quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O lado B da minha relação com meu Daemon

Tem coisas que a gente não fala. Pegam mal. São feias. Gostar de Paulo Coelho é uma delas.
Meu primeiro blog para falar de espiritualidade, no entanto, também foi o primeiro blog que eu fiz o template. E como era o template do Buscas? Uma viagem psicodélica em cima da letra de Mata Virgem, do Raul Seixas. Esse disco é um dos meus preferidos na vida. (Já que estou falando de lado B, vamos assumir também que somos fãs de Raul Seixas, ok?)  Então, Paulo Coelho não era novidade para mim quando todo mundo começou a falar dos livros dele. Era o parceiro do Raul, oras.

Mas o que isso tem a ver com meu Agathodaemon?

Eu tinha uns 10 anos. Estávamos na sala de espera do pediatra. E minha mãe estava lendo As Valkírias. Eu estava irritada e impaciente (eu tenho fobia a médicos e hospitais) e ela parou de ler o livro para conversar com alguém, e eu pedi para ler. Ela me entregou o livro. E eu li. Minha mãe não sabia que já a alguns meses eu estava "roubando" a biblioteca de ocultismo do meu pai. Mas aquele livrinho com a imagem do arcanjo Gabriel na capa era perfeito para minha compreensão. Tinha uma linguagem cotidiana e falava de algo que eu convivia : mulheres e anjos. Virei o livro do avesso nos dias seguintes. E aquilo tinha exercícios simples de concentração, que eu conseguia fazer (tem muito exercício de teatro enfiado nos livros dele, mas isso tbm é divertido - pq exercícios de teatro sempre foram portas espirituais pra mim). Eu comecei a me concentrar, a limpar minha mente, a ouvir o silêncio e olhar o horizonte. E minha devoção a São Miguel Arcanjo e aos Santos Anjos explodiu numa centena de faíscas coloridas.

E eu podia sentir ele ali. Não como eu sinto hoje, não com a força com que sinto sua presença. Mas embora houvesse uma suspeita de escama e suas asas não fossem as asas branquinhas dos anjos da igreja, sua imagem era clara na minha mente quando ele se aproximava, carregando um chifre cheio de flores. Sabe como é, existem coisas que só as crianças conseguem fazer. Essas imagens mentais maravilhosas, por exemplo, cheias de detalhes.

Um ano depois, eu acho, apareceu nas bancas uma coleção sobre anjos que vinha com fitas cassetes para meditação. Era a época da febre dos anjos. Meu avô fez a coleção, não leu e tampouco fez as meditações. Eu peguei para mim. E todas as noites antes de dormir eu fazia as visualizações, as meditações e o caralho. E ai as coisas foram acontecendo.


Paulo Coelho é uma bosta em aspectos literários? Talvez. Mas eu tinha dez anos de idade e aprendi o que era canalização, e acreditei firmemente que eu podia falar com anjos. Então, eu queira ou não, devo uma para ele. Ok. Eu sei que na mesma época roubava livros da biblioteca de ocultismo do meu pai e e recitava trechos do livro dos mortos egípcio, e estava terminando de ler a bíblia pela primeira vez. Mas as Valkírias era a coisa certa para a minha idade, e ao invés de me colocar na teoria, nas coisas que eu não tinha maturidade emocional de lidar, me dava coisas práticas para trabalhar.

Quando rompi com o cristianismo, não senti falta dos santos e de deus e do cristo. Sentia falta do meu anjo, só. Nunca me desfiz dos meus anjos. Na verdade, estou olhando para os meus favoritos neste momento. Eles continuam aqui, mesmo representando coisas diferentes.

O fato é que eu nunca deixei de acreditar que havia alguém cuidando de mim. Então, aos quinze anos de idade eu fui atropelada e tive a sensação de ser amparada por imensas asas que me colocaram suavemente no chão. Nunca vou esquecer da aparência do carro que eu destrui com meu corpo sem me machucar. E um caco do vidro do farol do carro (que eu quebrei com o joelho) foi parar discretamente ao lado da minha imagem preferida de anjo ao mesmo tempo em que eu acendia velas de ação de graças para a Deusa.

Anos depois, veio a stregheria. As coisas começavam a fazer sentido e eu me voltei a um panteão greco-romano. E ali estavam os lare e os lasa, os genii, e eu me encontrei. De tudo que havia na stregheria, foi essa relação com os "gênios" (que eu agora chamo de daemones) que mais me cativou de cara. Dai para começar a cultuar meu agathos daemon foi um pulo, mesmo antes de me assumir helenista. 

E foi como voltar para casa. Eu assumo uma certa emotividade em falar disso. Porque eu me decidi a ouvi-lo 17 anos atrás, por conta de um livro bobo do Coelho. E o tempo devora, e hoje eu leio hinos antigos para ele, eu aprendi muita coisa sobre "spirit work" (não acho uma boa palavra em português), e quem sempre está lá por mim, quem me entende e ouve naquelas bobagens que não tenho coragem de pedir aos deuses?

Ele não se importa em me ouvir reclamar sobre o consumo exagerado de um item da dispensa que me obriga a ir ao mercado fora de hora, e tem a paciência de ouvir minhas preces para que um aluno difícil falte porque estou com dor de cabeça. Ele está comigo quando abraço os joelhos e sofro com a sensação de distância que as vezes sinto com relação a Dionísio e me ampara quando choro por bobagens. Ele me guia e orienta quando minha mente me prega peças. Graças a meu Bom Espírito, eu aprendo a seguir minha intuiçao e sei quando preciso parar e me permitir escrever mesmo que eu perca a hora. E graças a nossa relação, eu me viro em lidar com outros daemones, com os espíritos ligados aos lugares, com essas coisas espirituais cotidianas, que são muito mais "bobagens", que não dizem respeito aos deuses, que tem coisas muito maiores para cuidar do que minha batalha contra uma erva daninha num vaso de rosas.


Então, eis um pouco do lado B da minha relação com meu mais querido amigo espiritual, que com imensa paciência me aturava quando eu o chamava de anjo (mesmo com as escamas e a coisa com a Caçadora), que me orientou quando eu estava perdida, que voou até os deuses infinitas vezes para levar até eles pedidos de intercessão ou orientação para mim, e que esbanja alegria quando eu faço algo correto para o meu caminho espiritual. E que começou assim: com um livro do Coelho e uma coleção de fitinhas k7 da Mirna *insira aqui um sobrenome eslavo pior que o meu*.

6 comentários:

Helene Priscilla {Ἑλένη Καλλιοπη Ελευθέριος} disse...

Filhote de Lua, você não tem ideia de como precisava ler esse relato, hoje mesmo algo me aconteceu e pensei em anjos e agathos daemon, sempre amei anjos, em qualquer espiritualidade, até budista, strega com os lasa e lares, mas não cultivei uma relação com o Agathos Daemon até hoje, quando pensei ter sido Hermes que falava, Ele começou a me dar sinais, não fui eu, foi seu Daemon, agora encontro esse texto abençoado, agradeço muito a você e as Musas que lhe inspiraram e aos Theoi que me guiaram até esse amado blog.

ps.: Minha mãe adora Paulo Coelho e eu já li quando criança, e dai né?

Filhote de Lua disse...

Fico feliz que tenha sido útil. =)

Espartana disse...

Quem com mais de 20 anos que não leu Paulo Coelho, não é mesmo?

Uma das coisas com meu agathos-daimon quando ele ainda era 'anjo' foi uma epoca que eu sentia o sagrado em tudo que é canto, aí um dia eu estava sozinha em casa e fui preparar algo pra comer e, ao sentar na mesa da cozinha, senti forte a presença dele ali e falei (até meio braba, quase meio reclamando) "poxa, até na hora do jantar?" e escutei aquele trecho "o anjo do senhor acampa ao redor dos que o temem", aí eu fiquei UAU com essa resposta, me calei e fiquei feliz.

rsrs

pensador disse...

adorei o texto, vto bnt e profundo.
veio em boa hora pois agora estou tentando me conectar com meu Agatho uma vez q essa conexão é quase nula.

OBS: eu adoro Paulo Coelho :(

Edson Bueno de Camargo disse...

Bonito o poema de Sophia de Mello Breyner na barra lateral.

Os deuses e as deusas sorriem para quem ama a poesia.

Jota Olliveira disse...

Ahh Álex rss...
A coisa não é bem assim :P rss Eu tenho mais de vinte e tentei ler paulo coelho, mas sinceramente ele master me deu sono e eu abandonei, então me considero uma pessoa que NUNCA leu paulo coelho kkkk

Eu e meu Agathos Daimon? Nada por hora... como nunca tive ligação intensa com anjo da guarda, animal de poder e cia... ainda é estranho pra mim um "guardião/mensageiro".


Mas ok, uma hora rola!

 

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