segunda-feira, 29 de novembro de 2010

dia 4- Nascimento, morte e renascimento

Uma das coisas que me ligam a Dionísio é que eu vejo a vida como uma sequência de mortes. Quantas vezes morremos e renascemos durante o tempo regulamentar de uma vida?

Quando meu filho nasceu, eu passei por um momento muito intenso com relação a minha religiosidade. Acho que foi um momento de mudança de foco, que me fez mergulhar em Leto e na idéia de uma mãe que luta pela sobrevivência/reconhecimento de seus filhos. Inegavelmente, dar a luz é um momento mítico. Ainda mais para mim, que optou e lutou por um parto natural, não hospitalar.

É difícil falar em nascimento, mais doq ue falar em morte. Nascer é algo violento, sangrento, e lindo, mas de uma beleza que é aporreton, que não pode ser dita, porque pertence a um domínio fora das esferas cotidianas. Nascer é um mistério: não a toa Ártemis olha pelos partos - ela é uma deusa que guarda coisas que não podem ser vistas/ditas.

O nascimento foge do racional, e quando feito em sua natureza, nos carrega para dentro da natureza mítica, é uma forma de iniciação. Não acho que seja a única, ou que seja melhor ou pior que outras,mas é uma iniciação. E uma em que participamos não só como mães: todos nós passamos pelo parto como filhos de algum modo, e isso diz algumas coisas sobre nós.

Acredito que isso diga muito sobre nossa personalidade, e sobre como reagimos ao mundo.Algo de nós é moldado por essa primeira iniciação.

A morte é uma proximidade muito grande do nascimento. De fato, é como se fossem duas coisas muito parecidas. Não a toa, deseja-se para as parturientes uma "boa hora" - mas boa hora é como chamamos tanto o parto como a morte.


Morrer é apenas não ser visto/ morrer é a curva da estrada já dizia Fernando Pessoa. Para mim iso define tudo. Meus mrotos me deram tantos sinais que me acostumei com a idéia de que a morte é algo natural. Doloroso? Com certeza. Mas natural.

Eu sou devotada a Hécate e isso me deixa numa complicada situação. Eu sou a pessoa que vela os defuntos, ritualiza as passagens, age como psicopompe quando é preciso. Não é confortável - é só algo que faço bem e que me foi colocado entre minhas muitas funções terrenas. E lá vou eu carregando moedinhas nos bolsos quando vou aos velórios, acendendo velas e expulsando os keres.

Mas a morte pra mim carrega algo de esperança. Porque Persefone desceu ao Hades para nos trazer esperança. Porque Dionísio morreu e renasceu e porque há algo de fragmento dele em nós, talvez.

1 comentários:

Rô! - @robertarez disse...

O que eu mais gosto dos seus textos é a carga emocional que nos leva a cada linha. Nunca tinha visto o nascimento como violento e sangrento, mas é a mais pura verdade!

Fico feliz de saber que ainda há mulheres que valorizem o ser feminino, que valorizem o poder do sangue e vêem o parto como iniciação.

 

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